segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

A Oferta do Xamã

Enviada por Un@ em: Sep 24 1998 4:41PM

"Venho falar sobre nossos conhecimentos. Nossa
sabedoria não tem papel, está toda na cabeça."

Com essas palavras o Xamã ianomâni, Davi
Kopenawa, pontuou sua participação na abertura do
ciclo "Brasil 500 anos", evento que aconteceu no
início de setembro, promovido pela FUNARTE e
Ministério da Cultura. A parte da oferta de
compartilhar seu saber e sua cultura, o
representante dos povos da floresta também trouxe
a tona as diversas diferenças que separam o índio
do homem "civilizado" a começar pela língua, as
relações com a terra e com a natureza, as relações
de poder e de parentesco e os aspectos da vivência
do sagrado. Ressaltou também as dificuldades que
os índios encontram para sobreviver como cultura e
como grupo, denunciando o descaso das autoridades
para com as condições de vida e para com a
problemática enfrentada por eles - como demarcação
de terras, doenças, esterilização, exploração etc.
De fato, o saber do índio, sua cultura, sua
visão de mundo, seu modo de produção estão todos
em sua cabeça. Coisas difíceis de compartilhar com
uma civilização consciente de uma superioridade
técnico-mecanicista, cujos sentidos embotados são
incapazes de perceber a visão do outro. A história
da humanidade fecha um ciclo de quinhentos anos
que poderia ter significado muitas mudanças, mas
que no entanto reproduziu a mesma violência do
passado, quando as práticas de genocídio eram
constantes. À parte às inúmeras discussões em
torno da diversidade e das conseqüências
positivas de sua realização, até agora o mundo
não demonstrou nenhum exemplo concreto de como
isso possa ser feito. O Xamã faz a sua oferta,
assim como a natureza a cada mudança de
estação... mas nenhuma dessas ofertas é levada em
consideração. Assim cada índio que morre, cada
espécie que se extingue, leva consigo parte de sua
memória - que deveria ser nossa... parte de uma
herança cultural que a era dos descobrimentos
possibilitou à civilização resgatar, mas que ao
contrário... perverteu de novo.

Renata (Un@)

Zé Limeira, o Poeta do Absurdo

Do Grafiteiro

Dentre os poetas que gosto e aprecio, tem um, o Zé Limeira, chamado poeta do absurdo, conterrâneo de Augusto dos Anjos. Sua poética está em estabelecer ligações em favor da rima ou da métrica rompendo as amarras do tempo, espaço e mesmo de conteúdo. O que vale é a tirada, é o efeito sonoro da rima e o surpreendente contraste da dinâmica da harmonia musical, das palavras. Sempre terei um carinho especial por este trovador dos oito quadrões... Nunca me canso de reler!!! É um verdadeiro desopilador cultural. Extraí do livro de Orlando Tejo, Zé Limeira , o Poeta do Absurdo, os seguintes trechos que deixo abaixo para o deleite do leitor:

I

Eu me chamo Zé Limeira
Da Paraíba falada,
Cantano nas escritura,
Saudando o pai da coaiada,
A lua branca alumia,
Jesus, José e Maria,
Três anjos na farinhada.

II

Eu me chamo limeirinha,
Nascido lá no Tauá,
Entre casca de angico,
Miolo de Jatobá,
Bico de mato vadio,
Picilone z-a zá.
Aonde Limeira canta,
O povo não aborrece,
Marrã de moça donzela
Suspira que o bucho cresce,
Velha de setenta ano
Cochila que a baba desce.

III

Zé Limeira quando canta
Estremece o cariri,
As estrelas trinca os dentes,
Leão chupa abacaxi,
Com trinta dias depois
Estoura a guerra civi !

IV

Eu briguei com um cabra macho,
Mas não sei o que se deu:
Eu entrei por dentro dele.
E ele por dentro deu,
E num zuadão daquele
Não sei se eu era ele,
Nem sei se ele era eu.

V

São José de Mipibu
Era o pai de Jesus Cristo,
Mas quando Ele soube disto
Já tava em Caruaru,
O mundo ficou azul,
Começou um pé-de-vento,
Correndo atrás duma lebre,
Quem for podre que se quebre,
Diz o Novo Testamento.

VI
Numa noite de sol quente
Matei Lourisvá Bandeira,
Enterrei o corpo dele
Dentro de uma bananeira,
Botei quatro pá de terra,
Inda hoje o cabra berra,
Pensando que é brincadeira.

VII

Não deixo a minha rocinha
Pelas festança da praça,
Cavalo magro não corre,
Cachorro doido não caça.
Conheço o pai do menino
Pela barguia da calsa.

VIII

O velho Tomé de Souza,
Governador da Bahia,
Casou-se e no mesmo dia
Passou a pica na esposa.
Ele fez que nem raposa:
Comeu na frente e atrás,
Chegou na beira do cais,
Onde o navio trefega
Comeu o Padre Nobréga,
Os tempos não voltam mais.

IX

O que eu dixé você note
No caderno do futuro:
Limeira canta seguro
E sabe acochá o mote,
Cascavé que não dá bote
Guachinin chupando cana,
Já passei uma semana
Só vendendo catrevage,
Trago nalma tatuagens
Da minha origem cigana.

X

Do topo da serrania
Eu disse para o meu amor:
Olha o santo esplendor
A natureza irradia!
Ela, em êxtase pedia
Que lhe beijasse na fronte...
O resto eu nem sei se conte...
Mas, naquela noite de lua,
Eu vi os seios da lua
No decote do horizonte.