quarta-feira, 30 de julho de 2008

Amélia 28-07-2008

Por Grafiteiro
Era uma casa com luzes vermelhas, que constituía num bar com músicas de ficha que muitas vezes repetia-se indefinidamente como se estivesse anotando a partitura ou mesmo aprendendo a cantarolar. Amélia Marques fazia o seu ponto. Saia curtíssima com botas cano-longo com blusa aberta decotada, mas presa com um laço marinheiro a mostrar um sutiã colado fazendo ter a sensação que os seios queriam saltar a qualquer momento. Ao se aproximar um homem qualquer, ela retesava os braços favorecendo a exposição de seus belos mamões. Com uma mão balançava um copo de Martini com gelo e dava um gole sutil, quase sugando. Tudo isso fazia parte do seu desempenho de se sobressair visualmente. Sua boca maquiada com vermelho rubi combinava com os olhos assombreados com os cílios artisticamente separados. Não fumava, e sempre dizia que o cigarro estragava a digestão.

Nessa noite entrou no bar um rapaz alto, moreno, e foi logo deslumbrando a Amélia sentada na ponta da mesa. Dirigiu-lhe a palavra, e ela sorriu aceitando, provavelmente algum galanteio. Passaram mais uns momentos e decidiram sair para um motel.E foram satisfeitos um com o outro, dentro da bruma da noite fria e nebulosa.

Chegando lá, se despiram e partiram para a consagração de Afrodite. E assim ficaram se exaurindo... Uma vez, duas vezes, três vezes e, a Amélia insistia faminta. Coitado, se esforçava tentava se sair para um lado ou para o outro, mas ela o prendia vigorosamente e engolia aquele ser, cada vez mais para dentro do seu corpo. Pernas, sexo, o tronco e os braços desesperados a busca de um ponto fixo para agarrar iam sumindo misteriosamente dentro daquele corpo esbelto e viçoso. Era o seu primeiro cliente daquela noite e estava desfrutando num processo de verdadeiro canibalismo. Mexendo, e sacudindo ela o absorvia cada vez mais, melhor acomodando em suas entranhas. Ele gemia, urrava e desesperadamente nada podia deter o desejo e o impulso daquela.mulher.

Por fim Amélia disse Ufa!!! Quando por fim terminou sua relação com o rapaz que não mais resistia e lentamente sumia entra as pernas dela. E quando passava a cabeça dele ela empurrou para dentro como se tivesse sido emperrada pela passagem do nariz. Agora livre, ela vestiu a calcinha e se dirigiu ao banheiro onde se vestiu. Retirou da bolsa um baton vermelho rubi, e passou nos lábios marcando-os com um aperto nos beiços.

Penteou sua cabeleira qual leoa pós-pasto de sua presa e sorriu baixinho.Tinha sido espetacular como abertura dessa noite de aventuras, e saiu lânguida rebolando com os sapatos altos pelas sombras da noite a prenunciar a madrugada.

Mulher-Sereia 31-06-99

Por Grafiteiro

Ouço o canto da sereia
procuro saber de onde vem.
A brisa me traz o seu cheiro
E uma luz brilha em meus olhos.
na certeza de guiar até você.
Sou seu instrumento de prazer.
Um garimpeiro do corpo,
um alpinista do seu relevo
um agricultor do sexo
quero lhe dar prazer
de leve, macio, manhoso
sentindo o arrepio de sua pele
da ponta dos cabelos aos pés
Embriagado, excitado, todo louco
exalo o seu perfume de fêmea
em cada parte, em cada reentrância
quero me inebriar com seu aroma;
Curioso, observador, exultante
a percorrer cada curva e movimento
de parábolas, hipérboles e elipses
de sua boca, seios e quadris
cada colina e vale do seu corpo
Ao som da música de seus sussurros
arfar de respiração
suspense do inevitável momento
gemidos, delírios e gritos
aos compassos dos meus toques
salivas, babas que degustam, escorrendo
sentindo o sabor de seus beijos
o sabor de seu corpo
o sabor de cada pedacinho;
nessa conjugação de todos os sentidos
quero lhe penetrar toda entregue
cada pedacinho seu sem distinção
todo gemente, zonzo, selvagem
Sou teu amante!
(Este poema está inacabado, só me falta você...)

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Jesus te ama 28-07-2008

Por Grafiteiro

Trrrrrrrrimmmm, trrrrrrimmmmm, trrrrim, ligo o telefone, e do outro lado ouço uma voz a responder: Alô, Jesus te ama... Rio baixinho e me atravessa a cabeça aquela criatura insólita.
Lembro-me bem quando o conheci, era o irmão mais velho de um colega meu, e era dentista e capelão do Exército. Um tipo mediano franzino branquíssimo como se fora um filho das sombras de voz pausada e sorriso largo em ressonância com as pupilas brilhantes. Era da cidade de Picos no Piauí e, aqui em Recife residia fazendo a logística de estabelecer a educação de dois irmãos: um no curso técnico de Edificações e o outro no curso de Biologia da universidade rural. Conhecia estes dois os quais estava acostumado a comprar mel de abelha italiana retirada dos brejos pés-de-serras.
Muitas vezes jantara com eles. Eram animados e numa roda de festa gostavam de cantar as músicas do Luiz Gonzaga e Jackson de Pandeiro.
Certa vez, fui na casa deles pegar um litro de mel, quando deparei com uma discussão familiar onde o pároco reclamava da conduta do Firmino que estava com um romance com uma mulher casada. Dizia: com tanta mulher no mundo você vai logo se envolver
com uma mulher casada?! .... isso não se faz, é contra a lei do Senhor!, então recitava livros bíblicos com seus respectivos capítulos e versículos. E o cabra ficava corado dizendo: você não entende porque fez votos de castidade. Continuava o alarido o padre a dizer: Oh Deus, desmanche essa relação, faça abrir os olhos do Firmino.
De repente, notaram que não estavam sozinhos, e mudaram de assunto. Estava lá eu quietinho mal respirava para não fazer barulho.
Peraí que vou buscar uma garrafa de mel, daqueles do angico. Você sabe que só usamos o legítimo... Disse o Firmino. Poderia até não ser, mas eu acreditava neles. E ele voltando sorria mostrando aquele bem precioso dizendo: Eis aqui!
Ficamos conversando e ele logo me pôs a par da arenga com o irmão. Cara, to com uma mulher casada, to gostando dela e meu irmão está vindo com catecismo sobre mim...Rindo e dizendo disse: Paciência! Que vai fazer para desatar esse nó? Não sei...Ele não me entende porque eu quero o amor mais que os sacrifícios, e o conhecimento de Deus mais que os holocaustos. Nisso retornou o padre com a Bíblia na mão disse: A terra está cheia de adultérios e está em luto esta terra maldita. Adicionou dizendo: Toda mulher que se entrega a devassidão é como o esterco que se pisa na estrada. Muito pereceram por causa da beleza feminina, e por causa dela inflama-se o fogo do desejo. Vou ficar sentinela, e postar-me sobre a trincheira; vou espreitar o que vai me dizer o Senhor, e o que ele vai responder meu pedido. E assim ficava fazendo perguntas à Bíblia, o que considerava respondido com a primeira frase com nexo sobre o assunto. E ficava assim, mas abrindo o Livro em lugares diferentes. E num estalo, o Firmino tomou uma outra Bíblia e abriu desordenadamente quando o irmão fazia a pergunta, mostrando que teria que ter uma resposta direcionada a ele que estava sendo julgado e não apenas à vontade do irmão. E foi pouco depois que após uma pergunta pelo feita pelo padre Jesus-te-ama, que encerrou a querela. Pela bíblia do padre saia a resposta:
O Senhor é paciente e grande em poder, não deixa impune o culpado. E pela bíblia do Firmino: Por que me atormenta, homem de pouca fé? Dizia o Senhor. E assim voltava a paz, pelo menos até outro dia naquela república familiar.

domingo, 27 de julho de 2008

Terto Basílio 27-07-2008

Por Grafiteiro

Terto Basílio era um tropeiro na década de 30, vivia a transportar cargas de uma cidade a outra ou de uma feira a outra. Como católico de formação, gostava de rezar o terço durante as viagens. Era uma forma de ver o tempo passar rapidamente mexendo essas contas e rezava mais baixo que um sussurro, fazendo a pausa do Pai Nosso, na décima conta.
O Terto era um tipo caladão, letrado e exímio fazedor de contas. Era tido como uma pessoa achegado ao esoterismo... Mas isso ninguém afirmava na sua frente, pois não gostava de falar sobre isso com desconhecidos. Dizia-se que quando queria ficava encantado e ninguém via. Não sou muito crente nesta vertente, mas fazia uma fezinha nisso, apesar de pouco saber do assunto.
Terto tinha um cabelo comprido longo e usava um chapéu de couro mas não do modo caatinga, mas de coco. E assim andava trotando e rezando ela estradas e veredas do sertão.
Certa feita o Basílio foi a um barraco para tomar uma misturada das boas quando um viajante indagou como é que um homem que vivia rezando pelas estradas, bebia essa água do diabo. Não pensou duas vezes e atirou a misturada do copo na cara do estranho. Foi um auê! De repente virou um buruçu, era porrada pra todo lado, não se tinha parelha para o cabra. Também, com se 1,90m todo musculoso, agüentava pancada mas batia bastante tanto no importuno como em seus amigos. Qual o que! Pensara que podia provocar aquele devoto de Padim Cícero, mas se dera mal e pior, seus amigos também.
O pau rolava quando chegou a polícia local que amansou os briguentos com o calor do cassetete. Tá todo mundo preso, gritou um soldado. E foram para a delegacia.
Chegando lá o comissário começou os depoimentos com todo mundo. O Terto foi o último e se recusou a depor. Sendo assim o comissário soltou os demais e deteve o Terto numa cela, foi quando o homem disse “não podem me prender, se eu for preso eu vou fugir, não adianta fechar as portas da cadeia, fujo e ninguém vai ver”. O que respondeu o meganha: “emagreça e fuja pelas grades”, e saiu dando gargalhadas.

No outro dia uma surpresa! O Terto Basílio não estava mais lá. Tinha sumido! Foi uma correria...Foram avisar ao comissário, e em pouco tempo, todo mundo estava na cadeia local. Será que ele serrou as grades? Ou deu um jeito de destelhar e escapou pelo teto? Será que ele tinha uma chave mestra? Todo mundo perguntava ao mesmo tempo, nenhum respondia como ele realmente fugira sem deixar rastro ou dano de qualquer natureza. E a notícia se espalhou logo, e todo mundo palpitava sobre o que tinha acontecido. Anotei as versões para também fazer minha idéia.

Primeira versão: Durante a noite o comissário veio conversar com o Terto e foi certamente subornado por ele desde que saísse sorrateiramente e desaparecesse da cidade. O que vem a contrariar sua formação católica de passado limpo e honrado.

Segunda versão: O Terto tinha conhecimentos de hipnose, e de manhã, quando o meganha veio vê-lo, usando o terço, fazendo oscilar na frente desse guarda induziu a abrir a porta e a libertá-lo e depois trancou a cela. Quase acreditei nessa versão, mas quando soube que o cabra era analfabeto julguei que era um comportamento muito erudito para a cultura dele.

Terceira versão: O Terto era bruxo. Quando estava na cadeia, através da concentração e muita reza encantou-se, ficando aparentemente invisível. E o seu sumiço pode ser explicado por escapar pala porta quando abriram a cela para verificar a sua ausência. Ele surdinamente prendendo a respiração se esgueirou e tomou caminho ignorado. Duvidei dessa alternativa por pura ignorância dos segredos esotéricos preconizados por Papus. Era um problema de crença, coisa que sempre me faltou por isso não firmou até hoje uma explicação satisfatória de como o Terto fugiu, só sei que ninguém sabe, nem ninguém mais viu aquele cabra da peste que cavalgava rezando pelas pradarias do sertão.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Amajari (24 de julho de 2008)

Por Grafiteiro

Era é uma cidadezinha surgida praticamente de uma clareira no meio da floresta amazônica. Seu histórico data de 1975, quando chegou o primeiro morador Senhor Brasil. Posteriormente passou a se chamar Vila Brasil até que definitivamente se transformou em município passando a ser chamado de Amajari. Segundo o serviço de estatística do IBGE 2001, fica a 158 Km de Boa Vista, com 28 500 Km² numa população de pouco menos de 6 000 pessoas dispostas entre aqueles moradores da floresta e os residentes urbanos. Os índios não foram considerados por serem parte de uma comunidade móvel que ora estava no município e ora atravessava a fronteira venezuelana.

É neste cenário que o Sargento Penha tinha saído do Ariquemes para neste ermo local destacar. Solteirão, contava os dias para se retirar para um local mais afável para se estabelecer melhor, longe da falta de quase tudo, inclusive de moças casadoiras.
A vida na selva era simples, porém cheia de contrastes. A doença transmitida pelo mosquito, a malária, era o selo de cada um dos habitantes. Quem nunca foi parar no regime do quinino? Quem nunca pegou mais de uma vez? Os mosquiteiros eram artigos de luxo e dez vezes mais caros daqueles vendidos em Manaus. E só se sacrificavam e compravam quando contraiam a malária pela primeira vez. E o Sgt. Penha já tinha sido batizado!

O quartel, posto avançado do Exército Brasileiro na fronteira era o promotor da economia local juntamente com os seringueiros. Uma grande praça com uma igreja devotada a Santa Luzia, uma Farmácia onde funcionava uma padaria, um bordel, antigo casarão de dois andares construído pelo Seu Brasil, alguma mercearia, e uma associação comunitária com jogos de sinuca. Mais um salão de beleza que certamente funcionava na casa de um dos residentes.

Com suas luzes vermelhas o Bordel Brasil replandecia cheio de vibrações repleto com mulheres de todos recantos, o que tornava as noites muito apreciadas. Dizia-se que quem tinha mais de 30 anos era forasteiro em Amajari. Enfim a vida pulsava entre as cervejadas, os etílicos e os refrigerantes misturados com carne de caça assada na brasa nas noites quentes e úmidas onde o elemento brisa estava parado ou paralisado incapaz de fazerem mexer as folhas das açaizeiras.

As comunicações eram via aquática ou terrestre com toyotas. E como demoravam. Os militares preferiam a via dos rios Amajari e do Uraricoera; sempre existia esse movimento de vinda ou retornos do pessoal destacado.

Tudo ia bem nesse lugar quando chegou ao quartel um tenente jovem recém-saído da Academia Militar das Agulhas Negras. Era o Gregório Luís Viana Penha. Ele vinha disposto a estudar o movimento das ONGs nas terras indígenas sob a luz da soberania nacional envolvendo tantas organizações nacionais como até mesmo internacionais. Ouvira de seus professores dessa ameaça subjacente. Precisaria de contatos externos para ter uma compreensão mais aprofundada da realidade local. E foi nessas horas externas que aproveitava para curtir Marina Mari, linda morena maceioense de uns 35 anos. Nova, porém viajada cheia dos predicados que os homens costumam procurar para conjugar, com toda sensualidade brejeira.

Assim seguia calmamente o destino de cada um quando numa véspera de feriado local o clima ficou negro com uma briga pela disputa da Marina Mari. O Sargento Penha tinha ido se encontrar com Marina ao fim de uma tarde, e, ao subir as escadas rumo ao quarto da Marina, quando se deparou com o Tenente Penha que vinha saindo do quarto. “Você tá fazendo o que aqui, safado?” Gritou o sargento, o que respondeu
com um violento soco, o tenente. E assim, ambos robustos, ficaram trocando socos até se agarrarem e rolarem rumo às escadas. O alarido era grande com o barulho da briga e o grito das mulheres. Mas ninguém aparecia para apartar, enquanto isso o pau rolava.
Na frente do bordel tinha um fiteiro que fazia diversos serviços como o de sapateiro e jogo do bicho. Tomava conta o Nego Biu na hora dessa confusão quando ao passar o amigo Jayme, perguntou: que é que tá ocorrendo moço? E ele dando uma olhadela para os brigantes que deslizavam na escada disse soturnamente: “são dois homens que se dispenha por uma mulher que se disputa”. Foi ele que me contou essa história que ora me alembro pra vocês.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Pesadelo 21-07-08

Por Grafiteiro


Estava assustado, e acordei suando
Tivera um grande pesadelo
Ainda pasmo, me olhava atônito
Se todas as minhas partes estavam no lugar.
PASSEI A MÃO NOS OLHOS E CABELOS
E RESPIREI FUNDO.
Ufa!!! Estou vivo.
Fiquei a lembrar cenas estranhas..
Qual Tiradentes me senti esquartejado
Por mulheres.... Todas queria uma parte...
Se eu me envergava por um lado, aparecia outra....
Sentia-me segurado...preso, amarrado...

Levantei, bebi água, fui ao banheiro
E voltei a cama....
Dormi profundamente.
Agora cedo me lembrei do pesadelo
E senti novamente as forças daquelas mãos
Invisíveis me agarrando....
Acendi um cigarro e fiquei observando
A fumaça se desfazendo no ar..

Uma Vida 21-07-08

Por Grafiteiro


Linda criança
ainda de trança
mansa
balança
dança
com o príncipe encantado

Ainda chora
a toda hora
flora
aflora
namora
e vai para o castelo

Vem os filhos
outros os brilhos
tranquilos
trilhos
cílios
que carrega o tempo

o tempo passou
e com ele o amor
dor
dissabor
temor
do recomeço

angústia e solidão
moram no coração
emoção
frustração
lição
do passado-presente

o espelho da vida
trás muita ferida
sofrida
tolhida
lida
por um vida feliz!

Reducionismo 21/08/08

Por Grafiteiro

uma pessoa
uma inscrição
um endereço
um número
um registro
paciência
penitência
e a essência?
Existência
consciência
coerência
deferência...

domingo, 20 de julho de 2008

Erupção

Por Grafiteiro

Vejo emergir de meu ser
uma vontade de viver novas emoções,
mesmo que elas me façam sofrer...

É uma vontade e um receio de me sentir vivo!
É um sentimento que grita, chora e esperneia...
E simplesmente,
me faz viver...

Nunca Vou Esquecer

Por Grafiteiro


Hoje me vejo a olhar o passado
e viajo nos pensamentos ....
tento te ver, tão distante sentada
com um sorriso todo faceiro
enquanto a música soava alegre....
Lembro-me da primeira dança
De teus rubros lábios carnudos ...
O primeiro contato de meu corpo...
O primeiro beijo de um desejo....
Nunca o tempo foi tão rápido
A música, eu, você e a dança
A lança, o tacape de um caçador
O beijo, nunca tive tão prolongado
O abraço nunca senti mais apertado
Nunca vou esquecer aquela noite....






POESIA

Meus amigos, acabo de criar esta forma neo-concretista de poesia. Ela procura alterar a sensação de espaço bidimensional para o tridimensional associado ao efeito óptico da ilusão da profundidade ( perspectiva ). É simples de fazer, bastando reduzir os espaçamentos entre as palavras, gradativamente.Já tinha feito isto no papel....mas agora registro, pela primeira vez, na tela a sua Frente. Tentem aperfeiçoar. Qualquer avanço, gostaria de saber. É um recurso novo, limitado que cria força e enfatiza o significado das palavras.

A Mala

Jailson Queiroz ( Grafiteiro )

Na escuridão senti o vazio
da gênese humana
ouro, prata, bronze.
Meus desequilíbrios
ampliam meu tédio.

Ouvi mentiras
era uma clave pesada
ouvi promessas
era um anelo vívido
vi sorriso
era meu tropeço
vi ressabiar

era um intermezzo
entre um pesadelo
e pânico
retomei ao sono
querendo retornar ao sonho
recusei a realidade.

nada quis
daquilo que não me pertence
nada mudei
daquilo que sempre fui
nada. nada. nada.
Olho para dentro dela,
fechada como um tesouro
e vejo que está vazia

onde está o que coloquei?
De repente avisto um reflexo da luz
nas águas sombrias.
Vi
senti
compreendi
era eu o conteúdo da mala.

sábado, 19 de julho de 2008

Sobre o Tempo

Por Grafiteiro

Creio que foi Santo Agostinho quem disse: "O tempo é isso que, quando não me perguntam eu sei o que é, mas deixo de sabê-lo quando me perguntam".
O filósofo idealista V. S. Soloviov afirmou que : "o tempo não admite nem a explicação empírica de sua origem nem a definição racional de sua essência".
O idealista norte-americano Linnicolt escreveu que :" o mistério do tempo inviolável durante séculos de análise continua sendo coisa misteriosa e escorregadia, estranhamente incomensurável para mentes estranhas...É inacessível ao entendimento... Ante o mistério do tempo tudo se revela impotente: a capacidade da razão, as fórmulas da lógica e os métodos da ciência. O tempo é algo que escapa ao conhecimento. Nenhum pensador em nenhum século pode compreender este grande mistério: o tempo. Para este problema não se encontrou uma solução verdadeira..."
É curioso que um conceito tão habitual como o tempo se torne tão difícil de ser definido. Sem dúvida alguma, com o progresso social e científico, o problema do tempo vai adquirindo importância cada vez maior nos mais diferentes setores do conhecimento e da vida social. Tal fato desperta crescente interesse pela investigação do tempo em seus diversos aspectos, inclusive o filosófico.
Até bem pouco, as ciências não se ocupavam do tempo de maneira específica como tema próprio, no entanto, em nossos dias, a categoria de tempo entra inevitavelmente na investigação das leis básicas que regem as diversas formas do movimento da matéria. A ciência, á luz do método científico, constituído de mais perguntas do que respostas, mostra que o tempo forma um dos elementos essenciais da concepção moderna do mundo e procura responder às seguintes questões:
Qual o status ontológico da categoria do tempo?
Tempo é um conceito objetivo ou subjetivo?
O tempo é real ou fictício, absoluta ou relativo?
O tempo existe independentemente do homem?
O tempo está relacionado exclusivamente com a matéria viva?
O tempo é ou não quantizado?
O tempo é reversível ou irreversível
Qual a relação entre o tempo e a eternidade?
Existe tempo para o recém-nascido?
Qual a relação entre o curso do tempo, o aumento de entropia e a possível morte térmica do universo?

Foi Kant, o fundador do idealismo alemão quem estabeleceu as primeiras bases de interpretação do tempo, ao examinar três possíveis soluções para a natureza do espaço e do tempo.
São essências reais?
São inerentes às coisas, mesmo que fossem objeto de contemplação?
São inerentes apenas à forma de contemplação e a natureza subjetiva de nossa alma?

Kant foi o precursor da interpretação materialista do tempo e do espaço. Vendo claramente a interpretação materialista e a interpretação idealista do tempo e do espaço, Kant situa-se decididamente no ponto de vista da resposta idealista subjetiva ao problema que se lhe apresenta. Ele considera o tempo e o espaço como formas apriorísticas da percepção sensorial. Diz Kant: " não existe o tempo das coisas existentes, à margem e independente do homem...se tomamos os objetos tal como podem existir por si mesmos, o tempo não é nada..."
Newton admitia o tempo e o espaço absolutos, isto é, o tempo e o espaço existem independentemente do homem. Nisso se manifestou o materialismo de Newton, que não era conseqüente mas sofria de limitação metafísica. Em sua concepção, ele admitia a possibilidade de que o espaço e o tempo pudessem existir, de forma geral, livre de toda a matéria que os enchia.
Kant, na sua Crítica da Razão Pura, critica a doutrina newtoniana, manifestando-se contra a objetividade tempo e espaço e contra o critério de que espaço e tempo não ser forçosamente " condição necessária da existência de todas as coisas e deveriam permanecer inclusive se todas as coisas existentes fossem aniquiladas".
O ponto fraco de Newton foi admitir a existência do tempo na ausência das coisas.
Bergson, representante francês da teoria irracionalista dedicou mais que qualquer outro filósofo, atenção especial ao problema do tempo. Separando-se do idealismo tradicional e do materialismo, declara que a realidade não é a matéria, mas a idéia como tal, mas a duração. O indivíduo aparece do fato como único possuidor de duração e em conseqüência como o único portador do tempo. É típico da filosofia de Bergson relacionar o tempo exclusivamente com a matéria viva e negar categoricamente sua existência na natureza inerte.
Em seguida a Bergson, Spengler propôs um conceito análogo do tempo como substância especial. Para ele, o conceito do tempo entendido como expressão do princípio interno, é sinônimo de destino. "Na verdade destino e tempo são palavras que substituem uma a outra", escreveu Spengler. Segundo ele, o tempo é o portador da vida, do inevitável, do predeterminado. O ponto de vista de Spengler, tem estreita ligação com a maneira de conceber o tempo dentro da ideologia religiosa: como certo signo, como princípio todo poderoso que encarna a fatal predeterminação.
Na religião, a substancialização do tempo, isto é, reconhecendo-se o tempo como substância especial, temos um dos caminhos gnoseológicos para formar o conceito de divindade. Separando-se o tempo de todo conteúdo material, ele se transformará numa substância especial independente-- Deus.
Na concepção materialista do mundo a substância universal já se apresenta sob o aspecto da matéria. É esta, precisamente, e não o tempo, o objeto de todas as variações segundo expressão de Marx: " O tempo é uma forma de existência da matéria, uma forma objetiva como a própria matéria".
Acredito que o tempo não é uma substância especial, mas está subordinada à matéria e que não pode existir independentemente dela. O tempo não existe como substância independente mas avista realmente como atributo da matéria em movimento.
Em resumo, podemos dizer se não fosse o movimento da matéria, o tempo não teria razão de ser.
Na Física, o tempo nada mais é do que um mero parâmetro que serve para descrever o movimento da matéria: parâmetro indubitavelmente útil, mas que não pode em hipótese alguma ser considerado como entidade absoluta colocada fora da matéria,
Finalmente , existe grande incompatibilidade entre a teoria física do tempo e do espaço -teoria da relatividade - com a concepção kantiana. Einstein advertiu : "Estou convencido de que os filósofos - disse ele - exerceram perniciosa influência sobre o desenvolvimento do pensamento científico ao trasladar alguns conceitos fundamentais da esferas do campo experimental, onde se encontram sob nosso controle às inacessíveis alturas do apriorismo. Tal aconteceu sobre tudo, no que se refere nos conceitos de espaço e tempo. Sobre a pressão dos fatos os físicos se viram obrigados a tirá-los do Olimpo do apriori para colocá-los em seu devido lugar e torná-los aproveitáveis ".

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Garrafa de Vinho

por Grafiteiro

Aqui está meu primeiro conto que fiz em minha
vida, aqui neste instante, exclusivamente para
esta comunidade. Peço a todos que me lerem que
sejam condescendentes comigo. hehehehehe


Tudo começou quando ele aceitou um pouco
da pipoca que a Nice comia. Trocaram de olhares e
sua linguagem de sincero entendimento e desejo
estabeleceram uma relação de união informal sem
nenhum compromisso firmado. E agora na velocidade
do pensamento, tudo aquilo passava quadro por
quadro em sua mente. Estava preso no banheiro,
todo nu e nem toalha tinha nele para esconder sua
nudez. Nem janela para escapar. Só o silêncio, o
controle da respiração e um passar de horas
dentro de poucos minutos na sua imaginação.
E os slides mentais passavam, passavam
ritmicamente. O instante de tocar suas mãos no
restaurante a beira mar àquele instante que
fizeram amor pela primeira vez dentro do carro.
Em um dia como hoje, lá estava o Nélio a caminho
da casa dela com uma garrafa de vinho na mão.
Seria o máximo na sua imaginação um vinho, umas
palavras doces e uma tarde de prazer. Teve a sua
orgia vespertina, mas `a custa de leite de soja e
outros petiscos macrobióticos. Afinal, acabara de
descobrir uma Sacerdotisa do Vale do Amanhecer.
Agora se acostumara com os hábitos da
capricorniana. Era a penitência que se submetia
para gozar daquele corpo dourado. Ficou viciado.
Toda hora era hora de se encontrar com ela. Como
o dia era pequeno entrava pela madrugada adentro,
e depois abatido voltava pela casa na velocidade
máxima que seu carro produzia. Ainda bem, que não
mais bebia. Nunca a garrafa de vinho tinha sido
aberta. apenas servia de marco de sua passagem,
de sua existência e de seu domínio. Era um totem
profano. E assim, os quadros se passavam
lentamente em sua mente febril. Estava em transe.
Naquela noite, tinha feito amor com a deusa,
e , estava no banheiro quando chegaram visitas.
Tinha deixado a toalha fora de outras idas,
estava desesperado a imaginar como sair daquela
situação. Ela apressadamente se vestiu e foi
atender, pedindo que se trancasse e ficasse
quieto.
Era seu irmão. Ouvia a sua voz, de longe, e
conversava consigo mesmo; o que acontecerá se
ele quiser vir ao banheiro?
Enquanto nada acontecia, Nélio, sem saída,
fazia suas imprecações e juras, para o que fazer
se saísse bem desta situação. Nem nos seus pais e
irmãos pensou. E como demorava a conversa entrou
em devaneios. Enfim, bateram na porta do
banheiro. Rapidamente se posicionou para um
ataque e abriu o ferrolho ou a fechadura. Nem me
lembro o que ele me contou. E de repente,
terminou o seu pânico: era a Nicinha, e dela
ouviu o cochicho: Era meu irmão, fale baixo que
estão indo embora. Veio ver se eu tinha bebida, e
eu dei tua garrafa de vinho!

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Metade - Ferreira Gullar

Obs. do Grafiteiro
(Eis aqui uma poesia linda feita por Ferreira Gullar,
inspirada no poeta português Fernando Pessoa)

Que a força do medo que eu tenho,
não me impeça de ver o que anseio.

Que a morte de tudo o que acredito
não me tape os ouvidos e a boca.

Porque metade de mim é o que eu grito,
mas a outra metade é silêncio...

Que a música que eu ouço ao longe,
seja linda, ainda que triste...

Que a mulher que eu amo
seja para sempre amada
mesmo que distante.

Porque metade de mim é partida,
mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
não sejam ouvidas como prece
e nem repetidas com fervor,
apenas respeitadas,
como a única coisa que resta
a um homem inundado de sentimentos.

Porque metade de mim é o que ouço,
mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz
que eu mereço.

E que essa tensão
que me corrói por dentro
seja um dia recompensada.

Porque metade de mim é o que eu penso,
mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste
e que o convívio comigo mesmo
se torne ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto,
um doce sorriso,
que me lembro ter dado na infância.

Porque metade de mim
é a lembrança do que fui,
a outra metade eu não sei.

Que não seja preciso
mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito.

E que o teu silêncio
me fale cada vez mais.

Porque metade de mim
é abrigo, mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta,
mesmo que ela não saiba.

E que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade
para fazê-la florescer.

Porque metade de mim é platéia
e a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada.

Porque metade de mim é amor,
e a outra metade...
também.