sábado, 31 de maio de 2008

A Lâmpada

por Grafiteiro

Tem coisa que a gente sabe e por saber constitui num objeto de poder. È como se diz que informação é poder, e é de tal monta que sendo manipulada pode ter alcances impressionantes. É com essa consciência que um dos primeiros atos de uma ditadura é controlar a informação instituindo a censura.
Vou relatar um causo que numa reprodução microscópica traduz essa fenomenologia política da manipulação da informação.
Tínhamos retornado da Serra das Russas onde fomos fazer uma observação da passagem do cometa Halley, e estávamos famintos e com sede de uma boa cerveja geladinha. Era preciso porque, com o mau tempo, com pouca visibilidade ficamos realmente desapontados. Era preciso sorver uma lourinha de colarinho branco com umas bistecas tostadinhas.
O bar era rústico, mas estava relativamente cheio. Sua iluminação era de lâmpadas incandescentes esparsas no salão, mas com razoável visibilidade. O garçon nos serviu logo cervejas e fizemos os pedidos das comidas.
Logo percebi que tinha uma lâmpada falhando. Era curiosa. A lâmpada apagava por alguns segundos e ficava acesa pelo décuplo desse tempo. Cuidadosamente, verifiquei o intervalo das ocorrências ao longo da bebedeira. Estava muito chateado com o fracasso da observação do Halley, e um barulho de chuva no telhado abafava as conversas.
Neste dia parece que eu estava com o capeta no couro, pois ficava gozando por qualquer coisa. Carlos Alberto, o dono da luneta, num momento de exaltação, depois de incontáveis garrafas perguntava: “Quem sou eu afinal?” Ao que aproveitando a deixa dizia: Você que é a parte interessada não sabe, quanto mais eu! E sorria tomando mais um gole. Foi quando resolvi ampliar a brincadeira observando a lâmpada dizendo: Apague-se lâmpada! E a lâmpada se apagava... e passado mais alguns segundos novamente dizia: Acenda-se lâmpada! E ela cumpria meus desígnios. Fiz de 5 a 10 vezes, sem perturbar muito meus amigos que estavam no papo filosófico, quando fui interpelado por um sujeito de uma mesa vizinha: “Por que acende e apaga quando você manda?” Respondi zombeteiro: É que eu invoco Alá, e mando apagar ou acender! Mas é preciso ter fé senão ele não me atende. E para dar ênfase passei a dramatizar: “Ó Alá, apaga esta lâmpada”! E ela no seu ritmo, obedecia. A luz ia abaixando a luminosidade até sumir completamente. Para apagar era mais difícil, mas eu ficava repetindo: “Ó alá, acende! Mostra tua força!” E assim fazia eu com convicção o que desafiava o vizinho.
Numa certa altura o vizinho, com cara cheia das cervejas, se ajoelhou e ficou invocando Santa Maria com firmeza e rezando: “Santa Maria, acende a lâmpada!” “Ave Maria, cheia de graça....” Como a reza era longa atingiu o timing da lâmpada e a lâmpada apagou. Ficou pulando de alegria porque tinha dado certo, Santa Maria operara o milagre!
Eu ironizava: Foi sorte! Quero ver a Santa Maria fazer apagar. Nesta altura já tarde da noite, a gente feito moleque, cheio de cerveja, estava já com gente de outras mesas nos cercando para ver o desenlace! Era Santa Maria versus Alá.
Não importava mais a brincadeira. Não pensei que chegasse tão longe. Era só um detalhe técnico que eu sabia e ele não. Compreendi a força de quem detém a informação e a força também do fundamentalismo. Levantei-o do solo, a dei aquele abraço de bêbado e sorrindo disse: A lâmpada tem um defeito repetitivo, o melhor é a gente tomar a saideira, pois já estou querendo ir embora. E sem dizer mais nada ele balançou a cabeça concordando e bebeu conosco.
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sexta-feira, 30 de maio de 2008

De onde é vc?

Por Grafiteiro

Certa feita estava numa festa organizada no Clube Vassourinha, centenário clube carnavalesco de Recife, quando a caminho do bar, fui interpelado por uma senhora
Que me fez a seguinte pergunta: “De onde é vc?” O que sorri e prontamente lhe respondi que era daqui mesmo, me referindo a esta bela cidade que me acolheu.
Mal tinha respondido ela insatisfeita me fez a mesma pergunta: “De onde é vc?”. Então sorrindo desconfiado fui mais preciso: Sou de Caruaru e moro em Recife! Qual foi o meu espanto quando ela novamente entoando a voz como se fosse um pedido piedoso
perguntou: “De onde é vc?” Nessa altura resolvi brincar e traduzindo para o inglês o bairro onde nasci respondi: Sou de New Field e moro em Pernambuco. Ela sorriu toda faceira e resmungou contente “eu sabia que vc não era daqui.” Tinha certeza! E saiu alegre entre as mesas do baile.

Hoje passado muitos anos relembrei daquele insólito bate-papo. Chamou-me atenção em dois pontos: a razão por que me perguntava e outro foi a questão da verdade. Ela tinha uma verdade pré-estabelecida, não adiantava se eu falara certo ou errado.
Muita gente não quer saber a resposta certa que não seja aquela que cabe na sua pergunta.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Esfinge by (grafiteiro)

Sou enigmático
fácil de descobrir.
Venha desvendar.

Abater é minha sina.
Palavras mágicas
é fatal.

Se decifras meu instinto,
a vontade é tua.
Se não, é minha.

Fico sempre a te mirar
com minha vontade
indo com você.

Estou imóvel, acuado
olhando o deserto
não me entendas.

Um ser que todos encontram
que vão e que vem,
mas pouco falo.

Estou preso ao solo
este é meu destino.
Decifra-me...

quarta-feira, 28 de maio de 2008

SOU (by Grafiteiro)

Sou uma brisa suave
que bate em teu rosto;
eu sou uma triste ave
a procura de um pouso.

Sou uma alma penada
a procura de um repouso;
sou um grão, quase nada
fico a mirar, não ouso.

Sou sombra, sou alimento
sou como a água do mar;
amigo com sinceridade.

Dor, luz e sofrimento,
devoto do verbo amar,
sou um vate com saudade!