Por Grafiteiro
Terto Basílio era um tropeiro na década de 30, vivia a transportar cargas de uma cidade a outra ou de uma feira a outra. Como católico de formação, gostava de rezar o terço durante as viagens. Era uma forma de ver o tempo passar rapidamente mexendo essas contas e rezava mais baixo que um sussurro, fazendo a pausa do Pai Nosso, na décima conta.
O Terto era um tipo caladão, letrado e exímio fazedor de contas. Era tido como uma pessoa achegado ao esoterismo... Mas isso ninguém afirmava na sua frente, pois não gostava de falar sobre isso com desconhecidos. Dizia-se que quando queria ficava encantado e ninguém via. Não sou muito crente nesta vertente, mas fazia uma fezinha nisso, apesar de pouco saber do assunto.
Terto tinha um cabelo comprido longo e usava um chapéu de couro mas não do modo caatinga, mas de coco. E assim andava trotando e rezando ela estradas e veredas do sertão.
Certa feita o Basílio foi a um barraco para tomar uma misturada das boas quando um viajante indagou como é que um homem que vivia rezando pelas estradas, bebia essa água do diabo. Não pensou duas vezes e atirou a misturada do copo na cara do estranho. Foi um auê! De repente virou um buruçu, era porrada pra todo lado, não se tinha parelha para o cabra. Também, com se 1,90m todo musculoso, agüentava pancada mas batia bastante tanto no importuno como em seus amigos. Qual o que! Pensara que podia provocar aquele devoto de Padim Cícero, mas se dera mal e pior, seus amigos também.
O pau rolava quando chegou a polícia local que amansou os briguentos com o calor do cassetete. Tá todo mundo preso, gritou um soldado. E foram para a delegacia.
Chegando lá o comissário começou os depoimentos com todo mundo. O Terto foi o último e se recusou a depor. Sendo assim o comissário soltou os demais e deteve o Terto numa cela, foi quando o homem disse “não podem me prender, se eu for preso eu vou fugir, não adianta fechar as portas da cadeia, fujo e ninguém vai ver”. O que respondeu o meganha: “emagreça e fuja pelas grades”, e saiu dando gargalhadas.
No outro dia uma surpresa! O Terto Basílio não estava mais lá. Tinha sumido! Foi uma correria...Foram avisar ao comissário, e em pouco tempo, todo mundo estava na cadeia local. Será que ele serrou as grades? Ou deu um jeito de destelhar e escapou pelo teto? Será que ele tinha uma chave mestra? Todo mundo perguntava ao mesmo tempo, nenhum respondia como ele realmente fugira sem deixar rastro ou dano de qualquer natureza. E a notícia se espalhou logo, e todo mundo palpitava sobre o que tinha acontecido. Anotei as versões para também fazer minha idéia.
Primeira versão: Durante a noite o comissário veio conversar com o Terto e foi certamente subornado por ele desde que saísse sorrateiramente e desaparecesse da cidade. O que vem a contrariar sua formação católica de passado limpo e honrado.
Segunda versão: O Terto tinha conhecimentos de hipnose, e de manhã, quando o meganha veio vê-lo, usando o terço, fazendo oscilar na frente desse guarda induziu a abrir a porta e a libertá-lo e depois trancou a cela. Quase acreditei nessa versão, mas quando soube que o cabra era analfabeto julguei que era um comportamento muito erudito para a cultura dele.
Terceira versão: O Terto era bruxo. Quando estava na cadeia, através da concentração e muita reza encantou-se, ficando aparentemente invisível. E o seu sumiço pode ser explicado por escapar pala porta quando abriram a cela para verificar a sua ausência. Ele surdinamente prendendo a respiração se esgueirou e tomou caminho ignorado. Duvidei dessa alternativa por pura ignorância dos segredos esotéricos preconizados por Papus. Era um problema de crença, coisa que sempre me faltou por isso não firmou até hoje uma explicação satisfatória de como o Terto fugiu, só sei que ninguém sabe, nem ninguém mais viu aquele cabra da peste que cavalgava rezando pelas pradarias do sertão.
domingo, 27 de julho de 2008
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