sábado, 19 de julho de 2008

Sobre o Tempo

Por Grafiteiro

Creio que foi Santo Agostinho quem disse: "O tempo é isso que, quando não me perguntam eu sei o que é, mas deixo de sabê-lo quando me perguntam".
O filósofo idealista V. S. Soloviov afirmou que : "o tempo não admite nem a explicação empírica de sua origem nem a definição racional de sua essência".
O idealista norte-americano Linnicolt escreveu que :" o mistério do tempo inviolável durante séculos de análise continua sendo coisa misteriosa e escorregadia, estranhamente incomensurável para mentes estranhas...É inacessível ao entendimento... Ante o mistério do tempo tudo se revela impotente: a capacidade da razão, as fórmulas da lógica e os métodos da ciência. O tempo é algo que escapa ao conhecimento. Nenhum pensador em nenhum século pode compreender este grande mistério: o tempo. Para este problema não se encontrou uma solução verdadeira..."
É curioso que um conceito tão habitual como o tempo se torne tão difícil de ser definido. Sem dúvida alguma, com o progresso social e científico, o problema do tempo vai adquirindo importância cada vez maior nos mais diferentes setores do conhecimento e da vida social. Tal fato desperta crescente interesse pela investigação do tempo em seus diversos aspectos, inclusive o filosófico.
Até bem pouco, as ciências não se ocupavam do tempo de maneira específica como tema próprio, no entanto, em nossos dias, a categoria de tempo entra inevitavelmente na investigação das leis básicas que regem as diversas formas do movimento da matéria. A ciência, á luz do método científico, constituído de mais perguntas do que respostas, mostra que o tempo forma um dos elementos essenciais da concepção moderna do mundo e procura responder às seguintes questões:
Qual o status ontológico da categoria do tempo?
Tempo é um conceito objetivo ou subjetivo?
O tempo é real ou fictício, absoluta ou relativo?
O tempo existe independentemente do homem?
O tempo está relacionado exclusivamente com a matéria viva?
O tempo é ou não quantizado?
O tempo é reversível ou irreversível
Qual a relação entre o tempo e a eternidade?
Existe tempo para o recém-nascido?
Qual a relação entre o curso do tempo, o aumento de entropia e a possível morte térmica do universo?

Foi Kant, o fundador do idealismo alemão quem estabeleceu as primeiras bases de interpretação do tempo, ao examinar três possíveis soluções para a natureza do espaço e do tempo.
São essências reais?
São inerentes às coisas, mesmo que fossem objeto de contemplação?
São inerentes apenas à forma de contemplação e a natureza subjetiva de nossa alma?

Kant foi o precursor da interpretação materialista do tempo e do espaço. Vendo claramente a interpretação materialista e a interpretação idealista do tempo e do espaço, Kant situa-se decididamente no ponto de vista da resposta idealista subjetiva ao problema que se lhe apresenta. Ele considera o tempo e o espaço como formas apriorísticas da percepção sensorial. Diz Kant: " não existe o tempo das coisas existentes, à margem e independente do homem...se tomamos os objetos tal como podem existir por si mesmos, o tempo não é nada..."
Newton admitia o tempo e o espaço absolutos, isto é, o tempo e o espaço existem independentemente do homem. Nisso se manifestou o materialismo de Newton, que não era conseqüente mas sofria de limitação metafísica. Em sua concepção, ele admitia a possibilidade de que o espaço e o tempo pudessem existir, de forma geral, livre de toda a matéria que os enchia.
Kant, na sua Crítica da Razão Pura, critica a doutrina newtoniana, manifestando-se contra a objetividade tempo e espaço e contra o critério de que espaço e tempo não ser forçosamente " condição necessária da existência de todas as coisas e deveriam permanecer inclusive se todas as coisas existentes fossem aniquiladas".
O ponto fraco de Newton foi admitir a existência do tempo na ausência das coisas.
Bergson, representante francês da teoria irracionalista dedicou mais que qualquer outro filósofo, atenção especial ao problema do tempo. Separando-se do idealismo tradicional e do materialismo, declara que a realidade não é a matéria, mas a idéia como tal, mas a duração. O indivíduo aparece do fato como único possuidor de duração e em conseqüência como o único portador do tempo. É típico da filosofia de Bergson relacionar o tempo exclusivamente com a matéria viva e negar categoricamente sua existência na natureza inerte.
Em seguida a Bergson, Spengler propôs um conceito análogo do tempo como substância especial. Para ele, o conceito do tempo entendido como expressão do princípio interno, é sinônimo de destino. "Na verdade destino e tempo são palavras que substituem uma a outra", escreveu Spengler. Segundo ele, o tempo é o portador da vida, do inevitável, do predeterminado. O ponto de vista de Spengler, tem estreita ligação com a maneira de conceber o tempo dentro da ideologia religiosa: como certo signo, como princípio todo poderoso que encarna a fatal predeterminação.
Na religião, a substancialização do tempo, isto é, reconhecendo-se o tempo como substância especial, temos um dos caminhos gnoseológicos para formar o conceito de divindade. Separando-se o tempo de todo conteúdo material, ele se transformará numa substância especial independente-- Deus.
Na concepção materialista do mundo a substância universal já se apresenta sob o aspecto da matéria. É esta, precisamente, e não o tempo, o objeto de todas as variações segundo expressão de Marx: " O tempo é uma forma de existência da matéria, uma forma objetiva como a própria matéria".
Acredito que o tempo não é uma substância especial, mas está subordinada à matéria e que não pode existir independentemente dela. O tempo não existe como substância independente mas avista realmente como atributo da matéria em movimento.
Em resumo, podemos dizer se não fosse o movimento da matéria, o tempo não teria razão de ser.
Na Física, o tempo nada mais é do que um mero parâmetro que serve para descrever o movimento da matéria: parâmetro indubitavelmente útil, mas que não pode em hipótese alguma ser considerado como entidade absoluta colocada fora da matéria,
Finalmente , existe grande incompatibilidade entre a teoria física do tempo e do espaço -teoria da relatividade - com a concepção kantiana. Einstein advertiu : "Estou convencido de que os filósofos - disse ele - exerceram perniciosa influência sobre o desenvolvimento do pensamento científico ao trasladar alguns conceitos fundamentais da esferas do campo experimental, onde se encontram sob nosso controle às inacessíveis alturas do apriorismo. Tal aconteceu sobre tudo, no que se refere nos conceitos de espaço e tempo. Sobre a pressão dos fatos os físicos se viram obrigados a tirá-los do Olimpo do apriori para colocá-los em seu devido lugar e torná-los aproveitáveis ".

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